Cinco lições de história para antifascistas

A revista Serrote publicou uma tradução das cinco lições dadas por Mark Bray em seu livro The Anti-Fascist Handbook (2017). Super esclarecedor (e levemente aterrorizante), vale a pena a leitura do artigo inteiro – mas deixo os bullet-points (os dados trazidos pelo 5 foram, para mim, chocantes. Eu não tinha ideia que tinha sido tão pouco).

1. AS REVOLUÇÕES FASCISTAS NUNCA TIVERAM SUCESSO. OS FASCISTAS CHEGARAM AO PODER POR VIAS LEGAIS.

Primeiramente, alguns fatos importantes: a marcha de Mussolini em Roma foi só uma encenação com o ob­jetivo de legitimar o convite anterior para que ele for­masse um governo. O Putsch de Munique de Hitler, em 1923, fracassou completamente. Sua ascensão final ao poder veio quando o presidente Hindenburg o nomeou chanceler. A lei que lhe concedeu plenos poderes foi aprovada pelo parlamento.

2. MUITOS LÍDERES E TEÓRICOS DO ENTREGUERRAS NÃO LEVARAM O FASCISMO A SÉRIO ATÉ SER TARDE DEMAIS.

Independentemente de suas análises, contudo, muitos políticos socialistas e comunistas não agi­ram como se a própria existência de seus movi­mentos estivesse em jogo. Em 1921, os socialistas italianos assinaram o Pacto de Pacificação com Mussolini, e nem eles nem os comunistas acha­vam que a ascensão do Duce ao poder representa­ria mais do que uma nova oscilação para a direita no velho pêndulo da política parlamentar bur­guesa. Não foram muito diferentes, nesse sentido, da maioria dos socialistas espanhóis, que colabo­raram com o governo militar de tintas fascistas de Primo de Rivera nos anos 1920. Na Alemanha, os comunistas acreditavam que o fascismo já havia chegado no início dos anos 1930, quando os chan­celeres começaram a governar por decretos. Ainda assim, as lideranças do partido não se convence­ram de que esses chefes de governo supostamente fascistas ou a ascensão de Adolf Hitler representa­vam uma ameaça à sua própria existência. Para o Partido Comunista da Alemanha (KPD), o fascismo não exigia resistência, mas paciência – seu lema era “Primeiro Hitler, depois nós”. Na virada do sé­culo 20, a esquerda tinha motivos para acreditar que os períodos de repressão iam e vinham. O fas­cismo mudou as regras desse jogo.

3. AS LIDERANÇAS SOCIALISTAS E COMUNISTAS FORAM MAIS LENTAS DO QUE SUAS BASES EM COMPREENDER A AMEAÇA DO FASCISMO.

Como defendeu o historiador Larry Ceplair, os social-democratas “jogaram o jogo do parlamento por muito tempo, e seus líderes se torna­ram ideológica e psicologicamente incapazes de orga­nizar, comandar ou aprovar a resistência armada ou a revolução preventiva”

4. O FASCISMO ROUBA DA IDEOLOGIA, DA ESTRATÉGIA, DO IMAGINÁRIO E DA CULTURA DE ESQUERDA.

O fascismo e o nazismo se desenvolveram a partir do de­sejo de libertar o nacionalismo, o militarismo e a masculi­nidade das mãos da burguesia capitalista “decadente” que dirigia os governos italiano e alemão, e de tirar a política popular coletivista das mãos da esquerda socialista “dege­nerada”. Mesmo antes de Hitler assumir o poder, o Partido dos Trabalhadores Alemães usava uma saudável dose de vermelho em suas bandeiras e cartazes, e seus membros se tratavam por “camarada”.20 Isso produziu paradoxos anti–ideológicos, antirracionais, como “nacional-sindicalismo” e “nacional-socialismo”. Os fascistas e os nazistas “de es­querda” foram expurgados assim que seus partidos chega­ram ao poder e entraram em acordo com a elite econômica, mas a cooptação nacionalista da retórica do populismo da classe trabalhadora foi fundamental para essa ascensão.

5. NÃO SÃO NECESSÁRIOS MUITOS FASCISTAS PARA INSTAURAR O FASCISMO.

Em 1919, os fasci de Mussolini tinham 100 membros. Quando Mussolini foi indicado primeiro-ministro, em 1922, apenas entre 7% e 8% da população italiana, e 35 dos mais de 500 integrantes do parlamento, perten­ciam a seu PNF (Partito Nazionale Fascista). O Partido dos Trabalhadores Alemães tinha só 54 membros quando Hitler compareceu a seu primeiro encontro após a Primeira Guerra Mundial. Quando Hitler foi in­dicado chanceler, em 1933, apenas cerca de 1,3% da po­pulação pertencia ao NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães). Por toda a Europa, emer­giriam enormes partidos fascistas a partir do que eram pequenos núcleos no período do entreguerras. Mais recentemente, o sucesso eleitoral de muitos partidos fascistas (ou fascistoides) depois da crise financeira de 2008 e da recente onda de imigração demonstrou o potencial de crescimento rápido da extrema-direita quando as circunstâncias se tornam propícias.

 

8 comentários em “Cinco lições de história para antifascistas

    1. Não, esse é justamente o ponto do autor: tanto Mussolini quanto Hitler foram eleitos ou colocados no poder de forma democrática, sem um “coup” de Estado…
      Aliás, só aproveitando sua deixa, achei tão triste o “timing” do post ter sido publicado ontem e, horas depois, nossos militares mostrarem os dentes via Twitter… =(

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      1. Li um pouco. Estou em férias do outro lado do mundo. 11 hs de diferença.
        Sim, estão querendo mostrar mais q os dentes.
        A minha humilde opinião é q apesar de desilusões políticas, os brasileiros devem aprimorar a democracia. Com erros é q se aprende.

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      2. Pois é, eu acho que o grande problema do Brasil atualmente é que a “luta contra a corrupção” virou desculpa para contornar princípios democráticos. Não importa se a Constituição diz o contrário, o importante é combater a corrupção. Tava lendo um texto outro dia que defende que o antissemitismo do fascismo virou a “anticorrupção” dos nossos dias – o motivo para unificar discursos conservadores e acabar com garantias conquistadas a duras penas.

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    1. O pior de tudo é ver como a democracia é frágil… não sei se você leu o livro “Handmaid’s Tale” (tem a série da netflix agora também, mas eu não vi ainda, deve ser para lá de deprimente!), mas a Margaret Atwood descreve super bem como, de um momento para o outro, podemos sair de uma democracia estável para um governo fascista. Parece que toda a luta por direitos e garantias está sempre sob a ameaça de sumir de repente. Medho.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Não li o livro nem vi a série, mas já li sobre.
        Sim, parece mesmo, parece tão fragil que dá medo mesmo.

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